[Mau Exemplo] Declarações de um ex-fã da Square Enix.

Postado em Mau exemplo em 14/05/2009 com as tags , , , .

Você se lembra quando você era criança? Se lembra das histórias que lia, que ouvia, dos mundos encantados pelos quais viajava, e que guardam um lugar especial na sua infância? Pois bem, agora imagine um grupo de fãs criando histórias “fan-fics” com esses personagens, mundos. E imagine o autor das histórias originais enviando uma ordem jurídica de “cease and desist”, ordenando que todo o material criado seja destruído e alertando que qualquer divulgação dessa produção resultará em processo e multa.

Pois foi exatamente isso que fez a Square Enix, produtora da clássica série Final Fantasy e criadora de Chrono Trigger, maior referência do gênero RPG para Super Nintendo. A história para gamers você confere no Continue, o resumo segue:

Um grupo de fãs alterou o jogo original de Chrono Trigger para criar Crimson Echoes, um novo jogo com mesmos personagens e jogabilidade, mas com uma história completamente nova, projeto que durou cinco anos, envolveu diversos programadores pela internet e foi acompanhado de perto por fãs. Quase pronto para o lançamento, os autores do site receberam a tal carta com um belo pisão da Square.

Ok, alterar o jogo original e utilizar personagens, material e outros recursos protegidos por direitos autorais sem permissão é crime. Ponto. Não existe argumento legal para contrariar a decisão da Square. A empresa também pode estar preocupada com sua marca, que as pessoas confundam um jogo amador com algo produzido pela empresa.

Não joguei para afirmar, mas os vídeos divulgados mostram uma preocupação muito grande com a qualidade. O problema é que a Square agiu seguindo princípios absolutamente lógicos, como um computador faria. Estão usando propriedade intelectual da empresa, portanto, porrada neles.

Na verdade essa mesma ação já ocorreu outras vezes, com projetos de reformular o jogo em 3D. Para ter uma noção da encrenca, uma busca por “Final Fantasy” no DeviantArt, site que hospeda conteúdo de artistas e ilustradores, retorna 279 mil resultados de imagens criadas por fãs. Aplicando a grosso modo o mesmo conceito que baniu o jogo criado, todo esse conteúdo é ilegal.

 

Menos mimimi, mais branding

Um contraponto: A Valve enfrentou situação parecida, com programadores usando seu sistema ilegalmente para desenvolver um jogo que utilizava propriedade intelectual da empresa. Ao invés da patada, chamou os programadores para conversar, e acabou “encampando” a idéia, assegurando a qualidade do projeto e até fazendo certa divulgação em seu blog oficial.

Agora pense: você sabe o trabalho que dá fazer com que as pessoas interajam com sua marca? Você sabe a quantidade de projetos que não deslancham por falta de conteúdo gerado pelo usuário? Pense no trabalho infernal para fazer com que seus fruidores se tornem fãs a ponto de usarem seu bem mais precioso e limitado, o tempo, para criar algo para a sua marca?

A Square não só perdeu uma oportunidade de ouro de se destacar, mas também jogou uma pá de cal sobre os fãs. Tio .faso que confirme o que estou dizendo, mas isso não é o que uma marca deve fazer. Eu, pelo menos, já joguei a carteirinha de fã no lixo.

A imagem que ilustra este post é uma arte feita por Zoe Phoenix uma fã, recriando um dos cenários do jogo.

Por Rodrigo van Kampen

5 comentários

Helena disse:

A square devia incentivar em vez de restringir, ela está dando um passo pra trás desse jeito, é que nem os processos contra quem baixa musica na internet.. não vai levar a nada, precisa pensar numa outra alternativa!

.faso disse:

Realmente a Square (que eu gostava e admirava – assim mesmo no tempo passado) pisou feio na bola.

Fico pensando nas possibilidades que ela perdeu:
- Um jogo novo que vai colocar uma marca antiga novamente em voga, sem nenhum custo;
- Publicidade positiva gratuita;
- Chance de poder usar a nova criação p/ fazer um novo jogo, dando continuidade ao trabalho dos fãs e falando bem alto; OUVIMOS VOCÊS!!!!
- Sem falar que com a comunidade formada em torno da marca, a Square tinha a faca e o queijo na mão para trabalhar novos produtos com o seu público, podendo incentivar e patrocinar novos jogos.

Bom, perderam feio. Não souberam brincar e levaram a bola do play. X\

Um super abraço e ótimo post,

.faso

Fabio Bracht disse:

Eu nunca fui fã da Square, apesar do próprio Chrono Trigger ser um dos meus jogos favoritos de todos os tempos. Acho os jogos dela muito quadrados e conservadores, características que, como vemos, são mero reflexo da mentalidade da empresa.

O que eu acho mais importante destacar nessa história toda é o fato de que a coisa toda ganhou ares de crueldade pelo fato do fangame já estar 99% pronto, agendado para ser lançado ente mês. A Square ficou cinco anos sem tomar conhecimento dessa obra? Duvido. Eles esperaram. Pra mim isso é uma mensagem: “a gente não gosta disso, e a gente não gosta MESMO”.

Pior pra eles.

Rodrigo van Kampen disse:

Helena,

Square = quadrado.
Pena que isso não vai acontecer, mas eu ia dar risada se as ações dela começassem a despencar.

.faso,
Gostei da comparação “A bola é minha então ninguém joga!”

Fabio,
Eu era muito fã da Square. Também fiquei pensando nesse lance de crueldade. Eu dei uma lida na história no site oficial, parece que o autor tentou entrar em contato com a Square várias vezes durante o desenvolvimento, mas nunca obteve resposta.
Em algum dos comentários do Continue estava:
“E lembre-se: a Square odeia você e toda a sua família.”

Filipe Boldo disse:

Isso que a Square fez não é nem dar um passo para trás, é não olhar para frente mesmo. É falta de visão.
De duas uma: ou o público-alvo deles são pessoas do século passado que, no máximo, conversam sobre videogames com seus vizinhos; ou não se dão conta que mundo mudou um monte e que o consumidor tem mais opções, mais influência e poder.
Aliás, podiam até ter usado o jogo como pesquisa de mercado. Foi feito por fãs e, provavelmente, tem todos os elementos que um fã gostaria de ver em um jogo produzido pela Square.
Pior pra eles mesmo!

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