Este texto é uma das várias reflexões possíveis sobre Jornalismo e Interatividade, que está participando da 3ª Ciranda de Textos, edição esta hospedada no Mil Idéias e Ideais de Todos.
Quando se iniciaram as discussões a respeito da TV digital, interatividade era a palavra de ordem. Enquanto na maioria das pessoas uma fabulosa imagem de “você decide” pelo controle remoto se formava, eu lia a respeito das maravilhas da nova tecnologia: o consumidor poderia comprar elementos do cenário da programação sem se levantar da poltrona.
No entanto, interatividade não se restringe em fornecer ao nosso telespectador a opção do sim ou não. Mas permitir o talvez, o provavelmente, e todas as outras hipóteses, ou seja, expandir o conceito retirado de um programa criado em 1992 e trazê-lo para os contemporâneos tempos do 2.0.
Um bom exemplo do “enxergar além” retratado aqui é um modelo de release para a mídia social, que não só apresenta o conteúdo ao jornalista, mas também oferece a ele todos os subsídios para abordar diversos enfoques na matéria, como por exemplo links dinâmicos, utilizando as ferramentas da web 2.0 para apresentar tudo o que já foi publicado sobre o assunto. Também abrange como ela está sendo discutido nos blogs, fóruns e comunidades virtuais, ou seja, permite que um determinado assunto ganhe asas, braços e pernas, permitindo assim que o jornalista produza conteúdo interativo.
Que por sua vez significa passar o mesmo conceito do release citado para a matéria, para que o leitor também entre em contato com uma variada gama de enfoques sobre determinado assunto, ou seja, ao ler a matéria, cabe ao leitor escolher quais nuances lhe interessam e lhe são mais úteis.
Para o jornalismo interativo, o jornalismo de links não basta. É preciso ampliar ao máximo possível o leque de possibilidades. Por exemplo, ao ler um determinado fato, se o leitor deseja saber como aquilo se aplica à economia local ou ao seu bolso, ele terá meios. Também obrigatoriamente deve ser capaz de tecer comentários, corrigir eventuais erros e ampliar a discussão apresentada.
Por fim, a interatividade do leitor com o texto só estará completo se ele puder passar também a ser autor, produzindo uma nova abordagem, infográficos para o texto, estendendo determinada ponta do assunto ou então reproduzindo aquele conteúdo.
Em um mundo ideal, uma matéria interativa seria construída por diversas abordagens completas sobre um mesmo assunto, arranjadas de alguma forma que o leitor tivesse contato com o núcleo central e a partir dele direcionasse a sua leitura para a desejada, co-produzindo o texto. Uma matéria assim só seria satisfatória com muitas pessoas trabalhando sobre a mesma pauta, cada uma com a sua visão diferente.
O que é impossível em qualquer empresa jornalística torna-se relativamente simples na web colaborativa, ao passo que as muitas pessoas produzindo conteúdo sobre a mesma pauta não precisam estar agregadas sob a bandeira da empresa. Nesse contexto surge então bastante forte a figura do mediador, defendida pela jornalista especializada em conteúdo colaborativo Ana Brambilla.
O papel do mediador, um jornalista, seria o de filtrar o bom conteúdo dessa malha de colaboradores, além de apurar a veracidade dos fatos e produzir a matéria inicial a qual o leitor terá contato, ou seja, criar um bom ponto de partida para que o leitor não fique sem os principais conceitos e implicações do que está lendo antes de escolher o seu enfoque.
Ou seja, uma diferença entre o jornalismo interativo e o jornalismo colaborativo do ‘cidadão repórter’, seria que a criação da reportagem interativa seria construída pelo jornalista, com diversos encaminhamentos dados pelos colaboradores. Como as possibilidades de uma pauta são infinitas, uma boa matéria interativa iria crescendo cada vez mais com o passar do tempo.
Ainda neste contexto, o papel das assessorias de imprensa nesta visão de jornalismo interativo é a de fornecer a ‘versão oficial’ dos fatos pela empresa, além de fornecer subsídios ao jornalista que produzirá a matéria. Ela volta então a ser mais uma fonte, e não a maior produtora da notícia.
Ou seja, trabalhar a interatividade no jornalismo é ser capaz de propiciar ao público uma visão de todo de determinado assunto, mas não bastar-se a isso, permitindo que a partir de uma mesma pauta, cada leitor possa escolher o encaminhamento que mais lhe interessa, participando da sua composição.
Apesar de eu geralmente ser bastante pragmático, a reflexão que apresento aqui é ideal, tenho minhas dúvidas que pode ser aplicada ou funcionar na prática. Mas é um exercício válido para refletirmos qual a distância do nosso trabalho real para aquele que imaginamos ser o ideal.
Por Rodrigo van Kampen
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Adorei esse olhar da interatividade porque traz a importância do jornalsita saber explorar o que está disponível na participação que acontece de maneira voluntária. Mas meu trabalho tem sido inverso, ou bastante diferente, porque aposto é na participação do internauta no decorrer do processo, e não apenas na mediação do produto pronto.Vc é de sampa, ou não?
Ceila, sou de uma cidadezinha perto de Campinas, atualmente estou em Bauru.
Entendo o seu ponto de vista e acho bem legal, mas neste caso acho que seria um jornalismo colaborativo, “do cidadão repórter”. Fiz um exercício de imaginar como seria um jornalismo interativo, ou seja, o leitor interagindo com a notícia, no caso, o produto pronto.
O internauta participando de todo o processo é uma coisa muito legal, mas aí caímos na questão de até que ponto isso é jornalismo…
Obrigado pelo comentário!
Abraços!
Como tu mesmo dizes, a situação é hipotética, para um “leitor-colaborador” hipotético. A maioria das pessoas mal lê (e entende) as três primeiras linhas de uma matéria xinfrim de jornal. Como é que vai querer interagir? E se a pessoa for um criminoso, corrupto, queira levar tudo para o lado em que possa tirar proveito, etc. É complexa a coisa. Depois, para que o cara vai querer perder tanto tempo? Melhor jogar conversa fora no bar, bater uma bolinha, “interagir” de outros jeitos, até mais saudáveis.
Abraço
Rogério K.
Rogério, é sempre legal bater um papo no bar! Mas se estamos falando de jornalismo, vai faltar cerveja para todo mundo, hehe! A idéia na verdade é termos vários pontos de vista, assim o leitor que quiser ler por cima para no começo, aquele que quiser se aprofundar pode. De certa forma, interatividade é dar ao leitor opções, principalmente em quê matéria ele quer se aprofundar, o que na mídia tradicional é impossível. Enfim, é um texto hipotético, o que não o invalida.
Muito obrigado pelo comentário!
Abraços!!